O Beltrano, olente e de olhar perdido, desenxabido por não julgar-se bem querido, absorto no amor não correspondido, embebe os pés n'água. Turva e fria água de rio, que não impede o desvairamento, o devaneio de enxergar ali, surgida da luz que ofusca-lhe os olhos, a imagem flutuante da paixão, a silhueta insinuante que deseja, com o balanço que apresentou-lhe à insônia, agora, sua companheira. Vê ali, saindo do Sol refletido, a razão da loucura, o alvo de todo sentimento, a explicação da esperança, enfim... o marco da mudança. O Beltrano, preterido pelos conceitos, percebe observando os pés molhados, o quanto já andaram e também a força e a vontade que têm de andar, repensa cada gesto, reproduz o recente caminho e vê que não mudou, que não procurou, que a insanidade é inerente ao amor, e que todos os que forem iluminados pela alegria daquele sorriso e a ingenuidade daquele olhar, estarão inermes e serão enfeitiçados. Pobre Beltrano! No seu caso, de nada adianta gelar os pés para esfriar a cabeça, erga-a, e tire os pés do rio, ponha-os para andar! Mas seja lá qual for a largura de seus passos, se vai ser amado ou não, deixe que daqui para frente, o coração indique a direção.
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